quinta-feira, 13 de setembro de 2007

O Cachorro que Mudou de Cor

Pobres, sujos, negros, asiáticos, nojentos! Eu odeio essa raça! "Me dá uma esmola, senhor?" dá vontade é de fazer eles beijarem a sola do meu sapato! Abomináveis! Eu sou Adolph Börghn Harowsberghr, e odeio mendigos. Sou louro, alto, tenho olhos azuis, um Jaguar 72 , uma Ferrari 550 e, é claro, uma mansão na Barra . Sabe o Citta América? Então, eu o comprei e construí uma casa. Gosto daqui porque nada é perto de casa, então não preciso andar e ter que ficar vendo aquelas pessoas que não tomam banho há mais de um ano.
No ano passado, um destes trecos, uma destas criaturas asquerosas, entrou na minha casa. Aqueles pés imundos e fétidos na minha grama. A COISA estava com fome, queria comida. Pulou o muro mas pouco tempo depois Joseph, Oswald e Cindy, meus cães de guarda mais fiéis, atacaram-no e estraçalharam-no, posso até pra imaginar eles rasgando a carne daquela COISA. Eu só descobri na manhã seguinte, com a alegria e a tristeza de ver que aquilo entrou na minha propriedade e morreu aqui, no meu jardim.
O jardineiro achou as sobras a 200 metros da casa. Eu o demiti quando descobri que ia ligar pra polícia e mandar os cães pro canil.Eu deixei o corpo lá, se é que aquilo é um corpo, aquilo é uma COISA, não merece nem respeito de uma funerária. Nem eu, nem qualquer um dos meus funcionários iriam tocar naquele corpo.
O esqueleto ainda esta lá. De vez em quando gosto de olhar pra ele, e apreciar a obra de meus "filhos". Dei uma coleira de ouro pra cada um e comprei uns gatos pra eles brincarem.
Eu não entendo essa gente... escolhem morar na rua, escolhem serem assim, pra depois roubar dos que são espertos, dos que não foram morar na rua.
Hoje meu principal acionista veio me visitar. Disse que tinha más noticias. Nem me preocupei, pois aquele imbecil sempre exagera. E nunca vai direto ao assunto:
-Senhor? Lembra de semana passada, quando você pediu pra eu botar todo seu dinheiro nas ações daquela estação da Petrobrás? E lembra que ontem aquela estação explodiu? Aquela estação era sua, senhor perdeu todo o seu dinheiro e ainda deve milhões.
-Não sobrou nada?- Histericamente perguntei.
O filho da puta, imbecil, retardado, acionista de merda, então respondeu:
-Só o valor da propriedade. Mas, depois de retirar deste valor o montante dos impostos e de sua divida sobra, só uns 300 mil.Quase nada para alguém da sua estatura. O senhor vai perder tudo.
-O que? Eu, Adolph Börghn Harowsberghr, na rua? Isto é um absurdo!
-Já sei! Minha carteira, tenho dinheiro lá.
Quando peguei a carteira notei de cara que não tinha muito, só 2 mil. Mas dava pra se restabelecer. Uma casa no Leblon, só duas televisões e só uma empregada.
-Amanhã eu vendo esta casa e do os cachorros pro Roberto Marinho.
- Por acaso o senhor acha que alguém tem dinheiro pra comprar esta casa? Se quiser vender tudo bem mas só vão sobrar 300 mil, como eu te disse.
- Só 300 mil? Com isso eu nem limpo a bunda.
- Fazer o que, né?
- E se eu vender parcelado?
- Aí o senhor vai ter que pedir parcelas muito pequenas e não vai conseguir o dinheiro que você precisa, no tempo necessário.
- Mas depois que eu usar esta sobra de 300tinhos, eu não terei mais como ganhar uma grana.
- Sei lá, porra como é que eu vou saber, vira gari, arranja qualquer emprego pequeno e depois de estabilizado cresce no mundo dos negócios de novo.
- O quê? Eu, Adolph Börghn Harowsberghr, de gari?! Eu vou é vender esta porra desta casa por 5 bilhões e ficar bilionário de novo.
-Não, calma, vende assim mesmo, pelo menos é alguma coisa.

-Parte dois-
Aqui estou eu em cima da cadeia alimentar. Estou aqui em cima e eles lá embaixo, pobres, sujos, negros, asiáticos... Eu sou melhor que eles. Recuperei-me depois do problema da estação. Tô no Leblon, cobertura, vista pro mar. Esta parte eu não gostei. Pra que vista pro mar? Ver um bando de pobre tomar banho? Eu raramente desço, só desço pra trabalhar. Fiquei dono de uma loja no Rio Sul, no Botafogo Praia Shopping e em Ipanema. Escrevi uma matéria pra uma revista sobre minha loja, ela ainda vai crescer bastante. O que mais gostei da matéria é que eu pude dizer ao mundo o que acho. O que eu acho dos pobres, sujos, negros, asiát...
Tem alguém na porta, é melhor eu atender.
-Seu filho da puta! No chão!
-Por favor... Meu dinheiro não está aqui. Tá no banco.
É obvio que isso é mentira, mas pobres são burros mesmo.
-Eu não quero dinheiro de um merdão que nem você , você vai sentir na pele. Você vai perder sua casa, a gente vai queimar essa merda! Aposto que aqui dentro tem muitos cartões de crédito, cartões de bancos. Você vai perder tudo, pode começar me dando o relógio.

-Parte Final-
Ricos, sujos, nojentos! Eu odeio essa raça! "Tô sem trocado." Dá vontade é de dar um murro bem no meio daquele sorriso branquinho! Abomináveis!
Eu odeio essa raça!

Um comentário:

Anônimo disse...

Como eu já te falei, foi uma história e não só um texto!