Nunca lhe foi dado tal mérito. Não a ele. Onde já se viu? Não fazia nada só zumbizava pela casa obedecendo às ordens da mãe. Realmente ninguém iria imaginar que justo ele seria escolhido. Muito menos que ele se candidataria para tal ato. Para a mãe foi mais do que um susto.
Ele trazia a gaiola de queixo erguido para casa. Ela estava coberta por um pano preto foi direto até seu quarto passando pela mãe como se não existisse, algo normal. Chegou, tirou o pano e ficou olhando para a pequena criatura cinza que corria de um lado para o outro. Leôncio não lhe tirava o olho. Lentamente ele abriu a gaiola temia que talvez o bicho fugisse, mas sua curiosidade foi maior.
Corriqueiro era um hamster como muitos outros. Adorava ficar sozinho em sua gaiola correndo em sua rodinha e enchendo a pança. Era pequeno, cinza e tinha olhinhos negros puxados. A turma concordou no nome devido à personalidade movimentada do roedor que não parava quieto. Todo final de semana alguém teria de leva-lo para casa, pois caso fosse deixado na escola certamente morreria por falta de cuidado.
Saindo da gaiola o pequeno animal olhava espantado para os lados. Nunca pode ficar livre. A professora era muito responsável e só quando um menino sugeriu soltá-lo no chão ela já deu uma palestra sobre as milhares de desgraças que poderiam vir a acontecer. Temendo outro discurso, as crianças não tentaram novamente. Pondo os pés fora da gaiola o pequeno animal correu pelo quarto todo numa velocidade surpreendente, tão surpreendente que Leôncio caiu pra trás num susto, nunca imaginara que ele seria ainda mais agitado fora da gaiola.
Todo dia no colégio de longe o menino observava Corriqueiro, ele o via na gaiola, solitário, auto suficiente, e o admirava, via no pequeno um reflexo de si mesmo. Sem amigos ele passava os recreios sentado em sua mesa comendo o seu lanche e olhando com o canto do olho para a gaiola. Sem nunca se aproximar, tinha medo de que outras crianças fossem rir dele se ele brincasse e machucasse o hamster. Por nunca terem sido visto juntos foi um susto para todos quando ele deu seu nome para por no sorteio. E quando seu nome foi tirado da caixa a professora pronunciou-o com um certo contra gosto.
Em casa a vida do menino diferenciava-se da de outros meninos, não pulava, não corria. Todas suas ações eram resultado de um pedido da mãe, sem que ela o pedisse não comia, não dormia, não tomava banho nem fazia os deveres de casa. Os tios e os avos estranhavam, reclamavam sempre com a mãe que o garoto mais parecia um zumbi. Mas ela gostava dele assim, ela se sentia muito sozinha desde a morte do marido. E em Leôncio via uma nova companhia para passar tempo com ela e ajuda-la na casa.
Via Corriqueiro correndo de um lado pro outro do quarto, quando o susto principal passou um sorriso abriu em seu rosto. Ele levantou e abriu a porta e deixou o pequeno andando pela casa sempre de olho no que ele fazia. Toda esquina ele estava logo atrás. Mas o rato era rápido de mais, logo ele não pode mais acompanhar, gritava o nome do rato pedindo para voltar, gritava que ele não estava acompanhando, como se estivesse com um bom amigo. Mas quando o animal não parava um medo passava por si. Ele sentiu tudo saindo de seu controle ele corria histericamente atrás do animal. Mas nada o fazia parar.
A primeira memória de Leôncio foi quando uma vez seu avô o perguntou:
-Leôncio, meu neto, quem você ama?
Sem entender a criança respondeu.
-Ama?
-Quando você ama alguém é porque aquela pessoa é pra você a mais importante, com a qual você não vive sem.
-Eu amo sorvete.
Ele adorava sorvete, só comia na casa da tia que sempre o empanturrava de sorvete de baunilha, mas o avô indignado retrucou:
-Como é possível você amar sorvete meu neto, sorvete é uma coisa morta e sem vida, como você pode dizer que não pode viver sem algo que você enfia na boca barbariamente?
Para a criança foi um trauma, o avô proibiu a tia de lhe dar sorvete. Mas em casa ele passou a sempre fazer um escândalo, na verdade era a única coisa pela qual ele já se importou, fez com que na casa nunca faltasse sorvete de baunilha para ele, ele passou a associar o amor, a necessidade de algo, com o sorvete que ele comia como uma fera.
Ele correia atrás do animal sentindo nele uma necessidade de vida, agora que o tinha nunca podia ser afastado.
Sua velocidade cresceu. Via o rato. Estava lá a sua frente. Cada vez mais amor e sorvete lhe vem à cabeça, necessidade. Ele vê o rato, num salto se joga no chão e o agarra. Amor. Sorvete. Necessidade. Solidão. O menino enfia a criatura na boca e com euforia mastiga-o e o engole logo em seguida.
Ele ouve sua mãe chamá-lo. Escorre sangue pela sua boca. Ele limpa coma a blusa e vai servir a mãe.
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