quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Lobos

É natural que meninos brinquem, tão natural quanto eles sentirem medo, mas há alguns que brincam de sentir medo.
Um deles em particular produzia seu próprio medo regularmente. Todo dia antes de seus pais chegarem em casa ele se encolhia nos cantos escuros da casa e imaginava os terrores que poderiam sair do escuro para ataca-lo.
A principio os pais não se preocupavam muito com a brincadeira, até que cansado de sua própria imaginação o menino resolveu subir o nível da brincadeira e se enfiar em situações perigosas. Ficou uma hora se pendurando da janela de seu quarto por apenas um braço, até que seus pais vieram salva-lo.
Fizeram o que qualquer pai normal faria, deixaram o menino de castigo por um mês. Trancado em seu quarto o menino foi forçado a se entreter com outras coisas e por quase um ano ele agiu como uma criança normal, até que sua escola fez um passeio ao zoológico.
Foi quando ele chegou na jaula dos lobos, que ele deixou de agir como uma criança normal novamente. Olhou fascinado enquanto eles brigavam um com o outro pelo pedaço de carne na mão do alimentador do zoológico. Os dentes e os barulhos que os lobos faziam encantavam o menino, ele permaneceu ali pelo resto do passeio. Talvez, para seu próprio bem, o menino nunca chegou a ver a jaula dos leões.
Na hora em que o grupo da escola estava se reunindo para ir embora, o menino estava ocupado demais escalando a grade que separava os visitantes dos lobos. Ninguém percebeu o que fazia, já estava na hora do zoológico fechar e, para a maioria das pessoas, os lobos não passavam de cachorros grandes e de animais que só dão medo em contos de fadas.
O cheiro do menino foi percebido no momento em que ele tocou na grade. Eles sabiam o que ele ia fazer, e se prepararam. Enquanto ele estava descendo pelo lado de dentro da grade, um dos lobos pulou contra a grade. No que ela balançou, o menino caiu no chão de uma altura de quase três metros, seu braço estava quebrado. Mas antes que ele sentisse a dor, seu braço já estava na boca de um dos animais. E, logo, o resto do bando atacou junto, foi rápido demais. Antes de entender o que estava acontecendo, o menino já estava desacordado. Ele não teve nem tempo para sentir medo.
Os funcionários do zoológico nunca teriam esperado essa reação dos animais, nunca ouve um caso de ataque anterior a esse, todos os lobos foram mortos a pedido direto do prefeito da cidade - a jaula foi desativada por tempo indeterminado.
Por sorte, ou muito azar, o menino sobreviveu. Ele perdeu a maior parte de suas duas pernas, e o braço que restava, provavelmente, teria de ser amputado, pois a maior parte dos músculos e tendões tinham sido devorados. Seus órgãos internos estavam estraçalhados, os médicos disseram que foi um milagre que ele tenha ficado com exatamente o mínimo necessário para que pudesse permanecer vivo. Seu rosto estava dilacerado.
Quando acordou, o menino não falava mais, ele apenas olhava fixamente para frente enquanto seus olhos tremiam em suas órbitas. Em sua mente, ele via os lobos brincando na sua frente, como que zombando dele, ele estava petrificado de medo. Em todos os sentidos, podia ser considerado um vegetal, mas estava consciente e aterrorizado, ele viveria o resto da vida sentindo o medo que não pode sentir no momento em que caiu.Todos lamentavam o que aconteceu com o menino e os pais choravam sobre o acontecido toda vez que cuidavam, dele.
Um ano e dois meses depois do acidente, o menino morreu. Neste tempo ele só dormia quando era sedado. Os pais, os funcionários do zoológico, a professora, o diretor do zoológico, todos assumiam a culpa da morte do garoto. Enquanto deitava imóvel na cama era impossível distinguir a expressão facial do menino por causa das cicatrizes. Ninguém nunca soube que ele estava sorrindo, que o medo era seu êxtase e que apesar de tudo, ele morreu feliz.

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